“O Brasil não reconhece os Brasis”

interpretações em prosa e verso de graça graúna

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/tematicas.v30i59.16074

Palavras-chave:

Literatura indígena, Indígenas mulheres, Pensamento social brasileiro, Utopia, Graça graúna

Resumo

A partir de elementos e passagens da obra de Graça Graúna, pensadora indígena Potiguara, este artigo discute a importante contribuição da literatura indígena contemporânea na renovação da teoria social a respeito do Brasil e seu povo, tensionando a sociologia brasileira hegemônica na nossa representação de sociedade nacional, com destaque para a superação da invisibilização étnica atravessada pelo desejo de emancipação social em perspectiva pluricultural. Com base no estudo da questão indígena e do indianismo na literatura brasileira, desde as crônicas dos viajantes e missionários do período colonial até a atualidade, bem como na leitura da própria autora sobre esses cânones, é mostrado como os povos originários foram sendo convertidos, excluídos, tornados cativos, associados a perdedores e subespécies. Ou seja, apagados da condição de sujeitos e de suas realidades socioculturais pelos esforços empreendidos pela intelligentsia brasileira no sentido de propagar ideias sobre o povo brasileiro e sua identidade enquanto nação eurocentrada. Por fim, são apontadas a interpretação de Graça Graúna sobre educação e direitos humanos, sua atuação contra a tese do “Marco Temporal” e a favor da sororidade entre as parentes indígenas. Espera-se, com essas reflexões e análises, jogar luz sobre projetos literários alinhados às cosmologias, auto-histórias e saberes indígenas na produção de um pensamento social de perspectiva decolonial e sensibilidade feminista, na construção de novo(s) projeto(s) coletivo(s) utópico(s) para o país.

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Biografia do Autor

Nanah Sanches Vieira, Universidade de Brasília

Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília.

Tânia Mara Campos de Almeida, Universidade de Brasília

Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília. Professora do Departamento de Sociologia e integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Mulheres da Universidade de Brasília. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Vitor Coelho Camargo de Melo, Universidade de Brasília

Mestre em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília. Pesquisador no Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios.

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Publicado

2022-06-10

Como Citar

VIEIRA, N. S.; ALMEIDA, T. M. C. de .; MELO, V. C. C. de . “O Brasil não reconhece os Brasis”: interpretações em prosa e verso de graça graúna. Tematicas, Campinas, SP, v. 30, n. 59, p. 193–228, 2022. DOI: 10.20396/tematicas.v30i59.16074. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/tematicas/article/view/16074. Acesso em: 5 dez. 2022.