Sobre a Revista

Há muito tempo venho pesquisando e trabalhando aproximações com a imagem fotográfica e tentando realizar leituras que possibilitem a construção ou mesmo um aprofundamento da crítica fotográfica e buscando metodologias sobre seu processo de significação e concretização de um conhecimento específico, especificamente no defrontamento frente a frente com a imagem. Recentemente trabalhando com alunos do curso de Ciências Sociais da Unicamp alguns ensaios me motivaram para levar em frente a proposta de criar um espaço cibernético de discussão e divulgação para esses tipos de olhares sobre a fotografia.

Um dos autores que primeiro mostrou-me alguns caminhos foi Roland Barthes em dois texto polêmicos. O primeiro texto um artigo chamado de "A Mensagem Fotográfica", e posteriormente no seu último trabalho publicado em vida "A Camara Clara". São textos que só não se opõem porque ambos fundamentam-se na idéia da referência absoluta, da imanência entre referente e significante; a presença física do real pela sua captação luminosa no suporte bidimensional. Entretanto, seus textos criam dificuldades da aproximação para uma leitura molecular, de um lado, pela insistência na relação de analogon do real no primeiro texto, ou como ele diz da fotografia " um real literal"; de outro lado, no livro "A camara clara", as subjetividades inerentes ao conceitos que trabalha e que muitos leitores despercebidos ou ingênuos insistem em localizar nas leituras das imagens fotográficas. Falo do conceito de "puctum", que quando citado necessita da referência às suas qualidades subjetivas e particulares na intimidade que o olhar egocentrado somente e isoladamente o vê, e muitas vezes precisamos do depoimento pessoal para entendermos o sentimento profundo do autor que analisa uma foto; são experiências sensitivas que somente podem ser transmitidas se sabemos as relações psíquicas que as envolvem. Por outro lado, em Barthes o conceito de studium nos permite uma aproximação direta com a visualidade expressa na imagem fotográfica pois existe como espetáculo e inventário cultural; sempre codificado. A escolha do termo studium para nossa seção leva em consideração principalmente esses atributos mas não fecha a janela para uma aproximação pontual e pessoal.

Raul Beceyro criticando Barthes possibilitou o fazer ensaístico sobre a fotografia a partir do que ele chama de estrutura propriamente constitutiva da fotografia que são os planos articulados pelo fotógrafo como enunciador de um significado. Assim, saímos da relação dicotômica e subjetiva entre objeto fotografia/leitor para um outro elemento presente na imagem e seu principal arranjador: o fotógrafo. Da mesma maneira, Susan Sontag no brilhante livro de ensaios "Ensaios sobre Fotografia", nos remete para a obra do fotógrafo como fato determinante para compreendermos sua proposta estética e social. Nesse caso, a própria personalidade e história de vida do fotógrafo implica em escolhas temáticas, como ela analisa a obra de Diane Arbus. Alguns fotógrafos já anunciavam-se imageticamente pertubando o olhar passivo da imagem fotográfica criando uma conceito de estranheza e assim levando o leitor para de encontro com o olhar enunciador do fotógrafo, como é o caso de Rodchenko, Brässai e Lartigue.

Ao tratar a fotografia como uma imagem técnica que comporta um programa inserido na máquina de fazer imagens, a câmera, Vilém Flusser no clássico " A Filosofia da Caixa Preta" considera que a fotografia traz junto consigo um conceito imagético, um olhar sobre o mundo portador de lógica especifica e própria do meio. Diz Flusser, "A manipulação do aparelho é gesto técnico, isto é, gesto que articula conceitos. O aparelho obriga o fotógrafo a transcodificar sua intenção em conceitos, antes de poder transcodificá-la em imagens…fotografias são imagens de conceitos, são conceitos transcodificados em imagens". Nesse sentido, o deciframento da fotografia é de fundo cultural e elas são somente as pontas de icebergs, para tal devemos nos ater ao gesto fotográfico e na relação "fotógrafo-aparelho": " Se conseguíssemos captar a involução inseparável das intenções codificadoras, teríamos decifrado, satisfatoriamente, a fotografia resultante. Tarefa aparentemente reduzida, mas na realidade gigantesca. Precisamente por serem tais intenções inseparáveis, e por se articularem de forma específica em toda e qualquer fotografia a ser criticada".

Vick Goldemberg em seu livro "The Power of Photography" aprofunda essa proposta analítica de imagens fotográficas, indo além da imagem em si no plano do momento decisivo, como definiu Henri Cartier-Bresson, para contextualizar a relação do fotógrafo com o momento histórico que o circundou no instante da concretização do ato fotográfico. A autora persegue também as escolhas de edição e as reproduções das imagens em diferentes veículos de comunicação, assim além do fotógrafo temos o universo do acesso público a uma imagem e os mecanismos, muitas vezes tortuosos e ilusórios, que as imagens percorrem at;e chegar ao olhar do senso comum. Estamos aqui no plano da imagem-ato que fala Philippe Dubois, ou seja, o gesto de tomada (produção) inseparável de sua enunciação e de sua recepção (contemplação). Esse roteiro de Dubois é maravilhamente exposto no início de seu livro "O Ato Fotográfico", quando analisa a instalação " Authorization" de Michael Snow.

Terry Barret em um livro recente " Criticizing Photographs - An Introduction to Understanding Images", nos apresenta uma crítica à crítica de arte e depura algumas referências para a crítica da fotografia. Barret baseia-se em alguns pensadores tradicionais da crítica de arte e de alguns autores consagrados. Parte de Ralph Smith que situa a crítica de arte entre dois níveis de aprofundamento. Primeiro, o que Smith chama de crítica estética exploratória, na qual o crítico adia ou deixa de lado julgamentos de valor e centra-se nos aspectos estéticos do objeto possibilitando uma experiência o mais completa possível de olhar para uma obra de arte, de certa forma, é uma crítica didática. O outro nível é o que ele chama de crítica estética argumentativa, na qual o crítico argumenta em favor de seus julgamentos e tenta persuadir as pessoas de que a aproximação com o objeto de arte é melhor abordada no caminho por ele proposto e julgado, e ele está preparado para defender seus argumentos. Nesse sentido encontra em Ingrid Sischy os dois níveis citados, o exploratório e o argumentativo, quando essa autora argumenta favoravelmente a um fotógrafo ou não, mas o faz de maneira que possamos experienciar as fotografias através dos pensamentos descritivos e interpretativos, e mesmo quando não participa da mistificação de autores renomados. Barret aproxima-se da expressão de Andy Grundberg, "o dever da crítica é fazer argumentos, e não pronunciamentos", no qual é importante apresentar critérios explícitos da aproximação com o objeto fotográfico e não um gosto pessoal, "gosto, não gosto", " bom ou mau", etc.

Podemos dizer que o desafio dessa seção é propor uma aproximação com a fotografia na forma do que podemos chamar de um ensaio ou uma leitura analítica, descrevendo-a, interpretando-a, avaliando-a e quem sabe possamos também teorizá-la. O desafio de Studium é de todos que interessam-se pelas múltiplas significações fotográficas.

Fernando de Tacca

Dezembro, 1999.

Catalogação na Publicação elaborada por: Gildenir Carolino Santos - CRB-8ª/5447