Cosmopolíticas interculturais

dispositivos indígenas de tradução e conhecimento do Baixo Amazonas ao Submédio São Francisco

Autores

  • Leandro Durazzo Universidade Federal do Rio Grande do Norte
  • Ana Letícia de Fiori Universidade Federal do Acre

DOI:

https://doi.org/10.20396/maloca.v4i00.15098

Palavras-chave:

Ritual, Interculturalidade, Tuxá, Sateré-Mawé, Educação escolar indígena

Resumo

Este artigo propõe conexões parciais entre os modos dos Sateré-Mawé, povo do tronco Tupi habitante do Baixo Amazonas, de manejo dos dispositivos de interculturalidade na produção de utopias políticas e educacionais guiadas pelo complexo do Guaraná no contexto da formação no Ensino Superior, e os modos dos Tuxá, do Submédio São Francisco (BA), de, por meio do “complexo ritual da ciência”, articular a autodemarcação de suas terras, projetos de revitalização linguística e o estabelecimento de redes cosmopolíticas heterogêneas. Evidenciamos como projetos políticos e educacionais dos coletivos indígenas, conquanto se enredem pelas constrições das estabilizações jurídico-estatais da sociedade nacional que enquadram enunciados por direitos, acionam também agências múltiplas de diferentes regimes ontológicos, que desestabilizam categorias e promovem encontros os mais diversos. Assim, se os projetos linguísticos e político-pedagógicos dos Tuxá instauram uma dimensão de estudo ao conhecimento da ciência, na qual relações marcadas pela cautela com os encantados, seres mais-que-humanos, são determinantes para o acesso à língua e ao complexo ritual por meio do qual se compreende a força do território; a busca sateré-mawé pelo acesso à universidade potencializa e energiza redes e práticas políticas que se desenrolam há séculos, atualizando os atributos da chefia e ao mesmo tempo modos de relação com os brancos, mediados pelo professor waranã-sese (o guaraná verdadeiro em oposição ao waranã-rana) e prefigurados nas dicotomias inscritas no Puratig (o remo mágico que se encontra em analogias com a Bíblia, as cartilhas escolares e a Constituição Federal). Em ambos os contextos etnográficos, elementos festivos e rituais – a Dança da Tucandeira para os Sateré-Mawé, a ciência para os Tuxá – delineiam enquadramentos interétnicos ao serem performados em diferentes contextos com intensidades distintas, mas também delimitam saberes restritos, esotéricos, para os quais outras concepções de tradução e compreensão se fazem necessárias.

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Biografia do Autor

Leandro Durazzo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Doutor em Antropologia Social  pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Membro dos grupos de pesquisa ETAPA da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Opará da Uniersidade do Estado da Bahia (UNEB) e Macondo da Universidade pública em Pernambuco (UAST/UFRPE).

Ana Letícia de Fiori, Universidade Federal do Acre

Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora adjunta do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre (UFAC).

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Publicado

2021-08-16

Como Citar

DURAZZO, L.; FIORI, A. L. de. Cosmopolíticas interculturais: dispositivos indígenas de tradução e conhecimento do Baixo Amazonas ao Submédio São Francisco. Maloca: Revista de Estudos Indígenas, Campinas, SP, v. 4, n. 00, p. e021012, 2021. DOI: 10.20396/maloca.v4i00.15098. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/maloca/article/view/15098. Acesso em: 5 dez. 2022.

Edição

Seção

Dossiê "Etnologia transversa entre a Amazônia e o Nordeste"