Reflexos da relação dos Caxinauas com seu meio ambiente

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/maloca.v4i00.13778

Palavras-chave:

Amazônia, Cashinahua, DoBes, Meio Ambiente, Mitologia, Pano, Ritual

Resumo

Em 2008, os participantes Cashinahua da equipe DoBeS no Peru resolveram realizar um estudo de rituais com cantos e danças dentro do programa de documentação. Eles fizeram uma lista dos rituais fundamentais para a coesão social e decidiram começar pelo rito da fertilidade que é o mais praticado por todo o grupo que vive na fronteira entre Brasil e Peru. Para este estudo, os autores organizaram oficinas denominadas «rituais fundamentais», a fim de trabalhar em conjunto com os membros da equipe Cashinahua sobre o simbolismo dessa prática. Isso levou a equipe a uma série de reflexões sobre as letras dos cânticos e sobre a importância do ritual para as relações sociais e vitais do grupo. Foi nesse contexto que eles discutiram sobre o conceito de “fertilidade” que para eles está intimamente relacionado ao seu ambiente: Abundância de alimentos (legumes e caça da floresta) garantindo a sobrevivência e estabilidade social da sociedade Cashinahua. Essa sociedade é baseada na aliança entre duas metades: os descendentes da onça (inu bakebu) e os descendentes do puma (dua Bakebu). A evidência dessa concepção de mundo, que hoje já pode ter sofrido alterações devido ao impacto da globalização, pode ser melhor dada levando em consideração elementos da cultura tradicional dos caxinauas. As análises apresentadas neste artigo, portanto, baseiam-se em aspectos selecionados do rito de fertilidade do Katxa Nawaa (performances e cantos), na literatura oral na forma de um mito central sobre a cosmologia cashinahua, coletada há um século, e em elementos do léxico da língua cashinahua que estão relacionadas a este assunto. Este texto é resultado de um estudo participativo entre pesquisadores e colaboradores locais que juntos refletiram sobre o simbolismo do ritual de fertilidade que mostra a relação do homem com os diferentes elementos da natureza.

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Biografia do Autor

Eliane Camargo, Institut français d’Études Andines (IFEA)

Etnolinguista, é pesquisadora associada do Institut français d’Études Andines (IFEA) e membro da Associação Ipe para o diálogo intercultural. Camargo estuda a língua Cashinahua (etnossintaxe, nível de discurso, lexicografia) e cultura (rituais, cantos) desde 1988, e passou cerca de 7 anos com o grupo no Brasil e no Peru ao longo do rio Purus. Foi coordenadora científica do projeto DoBeS “Documentação de Cashinahua” (2006-2011).

Sabine Reiter, Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Linguista, é professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro da Associação Ipe para o diálogo intercultural. Reiter iniciou seus estudos sobre aspectos da linguagem em 2006, dentro do projeto DoBeS “Documentation of Cashinahua” (2006-2011; https://dobes.mpi.nl/projects/cashinahua/?lang=fr).

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Publicado

2022-01-18

Como Citar

CAMARGO, E.; REITER, S. Reflexos da relação dos Caxinauas com seu meio ambiente. Maloca: Revista de Estudos Indígenas, Campinas, SP, v. 4, n. 00, p. e021016, 2022. DOI: 10.20396/maloca.v4i00.13778. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/maloca/article/view/13778. Acesso em: 5 dez. 2022.

Edição

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Artigos