Chamada para o Dossiê "Fecundações cruzadas: concebendo corpo-pensamento entre filosofias ameríndias e epistemologias transfeministas"

2020-10-09

 

Conexão. 

Contato. 

Encontro. 

O Dossiê "Fecundações cruzadas" tem como objetivo conceber corpo-pensamento por meio de conexões, contatos e encontros entre as filosofias ameríndias e as epistemologias transfeministas. Explicamos:

Seguindo percursos teóricos e afetivos, íntimos e públicos, políticos e estéticos, aventuramo-nos em explorar o que podemos formular como uma "zona de contato" entre as filosofias ameríndias e o pensamento transfeminista, aproximando modos de percepção e de conhecimento dissidentes em relação ao racionalismo cartesiano que marca a modernidade. Queremos com este dossiê ampliar a conversa em torno das conexões possíveis entre as filosofias ameríndias e as epistemologias transfeministas, com vistas a construir uma comunidade de pensamento e experimento a partir das possibilidades de fecundação entre essas duas correntes de corpo-pensamento.

Por filosofias ameríndias queremos exprimir os estilos de criatividade e pensamento correspondentes aos povos ameríndios, uma multiplicidade de formas de engajamento com problemas de ordem conceitual e material. Ao mesmo tempo em que desafiam a metafísica do Ser, tais filosofias parecem se dedicar à heterogeneidade, à multiplicidade e à propagação no nível da experiência pessoal. Se existem muitos mundos possíveis, esses mundos estão sempre relacionados a pessoas determinadas. Mundo para quem?, então. No centro da reflexão filosófica ameríndia está a possibilidade de se tornar outro, transformação ou devir que se administra por meio das tecnologias corporais e de pensamento. As filosofias ameríndias estão marcadas por uma relacionalidade radical que coloca a identidade a serviço da diferença. Nesse contexto, os binarismos e oposições contrastivas são revogáveis ou provisórias, muitas vezes um recurso para modificar e proliferar.

Por epistemologias transfeministas buscamos sintetizar implicações sobre o modo de se produzir conhecimento a partir de uma perspectiva situada na experiência e no pensamento queer, nos estudos transviados e na crítica aos modos binários de pensamento que herdaram das movimentações trans uma forma própria de interrogar as normas, explorando as falhas, as intermitências, as linhas de fuga e os modos de (r)existência forjados por meio de saídas criativas frente àquilo que nos impede de seguir. Imaginamos a perspectiva epistemológica transfeminista a partir de uma dupla desconexão: primeiro uma desconexão analítica e experiencial com a heterossexualidade compulsória; em segundo lugar, uma desconexão semiótica e material com a "naturalidade" da diferença sexual. Essas duas desconexões permitem, enfim, instaurar novas conectividades. 

"Conexões parciais" é o nome do jogo que estamos propondo, de modo que as contribuições que esperamos receber exploram possíveis compatibilizações entre filosofias ameríndias e epistemologias transfeministas em distintos experimentos de corpo-pensar: teóricos, etnográficos, ensaísticos, especulativos. 

A recepção dos textos se dará pela página da Maloca até o dia 13 de julho de 2021.